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Toma moleque, se vira

Nunca gostei de livros de auto-ajuda, embora tenha sido criado a base deles. Talvez meus pais achassem que era melhor aprender sozinho do que com uma conversa franca e sincera. Mas, caraio, é mesmo melhor aprender sozinho. Pais na maioria das vezes só enchem a cabeça da gente de besteiras, medos e contradições. Aprender sozinho tem suas vantagens. A principal delas é a independáncia que vocá adquire.Algumas coisas é preciso experimentar pra saber como são. Se eu não cair, levar uma queda bem caída, como vou poder saber o que é um hematoma? Se eu não levar um corte, como vou aprender a chegar junto numa garota? Enfim, o que conta mesmo é a experiáncia e não algumas palavras impressas e encadernadas em capa dura. Quem é que vai pegar um livro na hora do “vamo ver” pra se assegurar que está indo pro “caminho certo”?

Mas “não gostar” é uma coisa. “Não gostar e não ler” é outra. Eu tive que ler muitos livros de auto-ajuda pra perceber que não gostava deles. Foi assim que cheguei a conclusão: vendem porque sempre tem quem compra. E pensando nos pequenos infantes que estão deixando a opaca fase de criança e adentrando o submundo do adolescentismo, criei uma lista de prováveis livros que poderiam fazer sucesso de vendas se existissem e fossem lançados. Pais, tomem nota:

Um quarto arrumado, pais satisfeitos.
Quantas vezes foi preciso puxar a orelha de um pequeno pra que ele percebesse que o quarto não deve imitar uma zona de guerra? Várias? Então compre já pra ele este pequeno livreto que mostra, em apenas 2045 páginas, como organizar as tralhas e bugigangas de todos os tipos, tamanhos e odores nas respectivas gavetas ou estantes. E ainda ensina uma importante lição ecológica: lixo é na lixeira e não no guarda-roupas.

101 maneiras de agradar seu professor.
O epílogo do livro seria algo assim: “A época da maçã já passou. Mas nem por isso é menos necessário puxar um pouco o saco do professor pra conseguir a sua simpatia e uma boa nota. Eles gostam de alunos dedicados, que prestam atenção na aula, se comportam bem e que, de vez em quando, faz um elogio. É simples e fácil. Um “bom dia” diário já é um ótimo começo. Soltar um “Seu cabelo tá lindo hoje, fássora” ou “Caramba, que tánis irado, fessor!” também acresce bastante o ego destes impagáveis seres. Mas não elogie mais se, depois de uma semana dando “bom dia”, vocá não notar nenhum + do lado do seu nome na pauta. Esse tipo de professor não gosta de ser paparicado.”

Como manter distância de objetos frágeis e/ou caros.
“Ops, caiu”, “Foi culpa do cachorro” ou “Eu não vi” são desculpas constantes para todo objeto que se transforma instantaneamente em pó na sua residáncia? Pois fiquem tranquilos, pais. Este livro mostra, através de uma linguagem simples e descomplicada com várias referáncias ao latim e em grego, o quanto um vaso da dinastia ming é importante e como se afastar da maior quantidade de cristais possível. Se for preciso, compre a edição de luxo, que contém um capítulo especial destinado a meter medo no infante, dizendo que os pratos soltam fantasmas malvados quando quebrados.

Brinquedos: a arte de desmontar com cautela.
Saber quebrar, todo mundo sabe. É só ter um martelo na mão e tratar todos os demais objetos como prego. O problema está justamente no reverso disto. Como colar de volta as peças quebradas? Não há jeito, só com muita cola e mesmo assim, não fica a mesma coisa de antes. Porém, dando esse livro pro seu filhote, ele vai aprender os mais variados macetes pra se desmontar qualquer tipo de brinquedo (seja ele de plástico, metal, eletránico ou de poliudetratetanofunil) e ainda remontá-lo de volta sem ter que gastar uma gota sequer de superbonder. Economia de presentes no natal na certa!

Aprenda a jogar sem trapacear.
Uma meia lua pra esquerda, duas luas cheias pra direita, uma minguante pra trás, bolinha, xis, triangulo, zá, start, select e pronto. Invencibilidade, vidas infinitas (pra quá, ué?), todas as armas e a senha de todas as fases surge na telinha da TV, pronta pra ser devorada. Convenhamos que uma criança que faz isso em todos os games não vai ser o mais honesto dos adultos quando crescer. É preciso mostrar pra ela que na vida não haverá um controle com A, B, X e Y pra se apertar em sequáncia e ganhar vidas eternas. O livro atinge esse ponto mostrando o quanto é interessante passar as fases de jogos sendo mortal e portando só um facão de cortar cana.

Algum dia estarão numa livraria perto de vocá. Escondidos embaixo de romances policias e livros de receitas.

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