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Archive for February, 2006

Relatório (in)completo – parte final

Antes de levar anestesia geral, lembro de muitas coisas.

Lembro de ter visto o médico chegando e colocando uma fita no video-cassete. Lembro de ter perguntado: “Vai ser anestesia geral ou ‘O Retorno à Lagoa Azul’ ? “. Ele sorriu e deu play. Era o vídeo de outra laparosseiládoque. Mostrava o, digamos, “eu interior” de alguém com o mesmo problema que o meu. Virei a cara pro outro lado pra evitar vômitos antes do previsto.

Lembro que a anestesista chegou, se apresentou e perguntou quanto eu pesava. Olhei em volta e falei em tom baixo “De verdade?”. Ela fez “sim” com a cabeça. “Oitenta e dois”, disse. Ela repetiu em tom alto e ainda disse “Tudo bem”. Saiu e voltou logo depois portando uma seringa enorme e uma agulha igualmente grande, pra combinar. Ainda bem que já haviam furos e tubos o suficiente na minha mão pra evitar que ela fizesse outro só pra anestesia.

Lembro que quando ela aplicou a injeção, fui entubado (colocaram uma máscara de oxigênio na minha cara) e disse “Tô indo… tô indo… já tô indo… agora fui.” antes de partir pra um sono profundo e longo. A ciirurgia durou aproximadamente 3 horas.

Do momento em que acordei da operação (por volta de meia-noite de quinta pra sexta, segundo minha mãe) até o instante que acordei no dia seguinte, só lembro de um imenso borrão de pensamentos desconexos. E um até engraçado, talvez.

Não sei se é aquele instinto natural que as mães têem de querer envergonhar os filhos, mas ela me disse que eu fiz isso mesmo. E como não posso nem afirmar, nem questionar a veraciade desse causo, acredite quem quiser: Quando cheguei do pós-operatório no meu quarto, levantei o lençol, olhei pra baixo e disse “Deixa eu ver se não cortaram o apêndice errado…” pra depois apagar completamente.

No dia seguinte, o médio veio e me recomendou caminhar nos corredores do hospital pra evitar gases no intestino, o que atrasaria a recuperação. Mas como andar com um abdomen dolorido? Se arrastando, é claro. Foi o que fiz, por pelo menos 25 metros na sexta. O que não impediu que o doutor me receitasse luftal durante todo o resto da minha internação.

Depois que comecei a tomar o tal remédio, passei a esperar que alguma empresa de gás me processasse por concorrência desleal de tanto metano que meu intestino produzia. Só o braço preso no soro me impedia de decolar da cama e voar janela afora. Tadinho de mim. Fora que sempre que descia da cama pro chão, o meu amável estômago tratava de produzir um belíssimo arroto. Devo ter acordado minha mãe umas 3 vezes assim.

Como parte da tortura inevitável pra poder recuperar o intestino de uma operação de apêndice, minha dieta consistia em alimentos liquídos ou pastosos. Como, logicamente, não incluia “gostosos” ou “com sabor” na descrição do meu cardápio, tive que comer (em alguns casos ingerir de nariz fechado) sopa, mingau, gelatina e suco. Sopa de papel de jornal usado, mingau de algodão, gelatina líquida e suco com gosto de alguma coisa entre beterraba e acerola, tendendo pra melancia. Encontrar algum gosto no meio da comida era tão fácil quanto achar um tamanduá-bandeira no fundo do Atlântico.

Só quando me liberaram a ingestão de sólidos novamente consegui reativar as papilas gustativas da minha língua (duh! que outro lugar tem papilas gustativas?). E logo de cara, almoço com arroz, frango e salada. Diliça.

Enquanto caminhava pelo hospital, treinava naturalmente o meu senso de direção. Aquele prédio é um labirinto em pé! Não era nada difícil encontrar pessoas desnorteadas olhando pra todos os lados procurando pela saída. Bem localizado era sim. Bem estruturado, não mesmo.

No final das contas, sobrevivi. Ao labirinto, à operação, à tensão da minha mãe, aos dias de cama e à comida ruim. Saí de lá mais forte do que quando entrei. E, provavelmente, com mais gases.

ps.: Esse foi o post mais “ria-da-minha-vida-antes-que-eu-ria-da-sua” que eu já escrevi. Aproveitem, é digrátis.

Relatório (in)completo – parte final

Antes de levar anestesia geral, lembro de muitas coisas.

Lembro de ter visto o médico chegando e colocando uma fita no video-cassete. Lembro de ter perguntado: “Vai ser anestesia geral ou ‘O Retorno à Lagoa Azul’ ? “. Ele sorriu e deu play. Era o vídeo de outra laparosseiládoque. Mostrava o, digamos, “eu interior” de alguém com o mesmo problema que o meu. Virei a cara pro outro lado pra evitar vámitos antes do previsto.

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Relatório (in)completo – parte 1

Era quarta-feira quanto comecei a sentir as primeiras dores (foi quase um parto, acho), mas ainda conseguia me deslocar o bastante pra ir na aula de inglês à tarde. Aliás, me deslocar foi o que eu mais fiz na noite de quarta. Já que não consegui durmir por causa do apêndice, ficava perambulando pela casa. Até as 3 da manhã foi assim, quando finalmente tomei um buscopan e fui tentar durmir, decidido a ficar de cama na quinta.

E não fiquei. Pelo menos não na MINHA cama. As dores aumentaram e eu pedi pra me levarem pro hospital. Chegando lá, fui direto pro pronto-socorro, que de “pronto” não tem nada. Fiquei por volta de 40 minutos aguardando na recepção pra ser atendido. Maravilha. Quase perguntei pro recepcionista que me atendeu se ele gostaria de acompanhar o parto lá do balcão mesmo ou se ele viria até a janela onde eu estava encostado, mas me limitei a entregar-lhe a indentidade e cartão do plano de saúde.

Quando finalmente me liberaram a passar pelas portas da esperança, entro no consultório de um cirurgião que apalpa a minha barriga como se fosse um melão (ou, no meu caso, melancia) de feira. Faz parte do procedimento, eu sei. Só fiquei ligeiramente incomodado com o fato dele quase ter feito patê do meu rim esquerdo, tamanha foi a força aplicada. Recomendou-me repouso completo, soro na veia, exame de urina e sangue urgentes, tudo lá mesmo. Fiquei durante umas 5 horas numa poltrona reclinável e confortável. Rangia pra subir e descer, mas era confortável.

Os resultados então chegam. O médico chama a minha mãe em particular, como se eu fosse só um acompanhante e não merecesse ficar sabendo do meu próprio diagnóstico. Legal. De longe, gritei: “É apendicite afinal?”. Ele fez que sim com a cabeça e continuou a conversar com a superiora. Pronto, já sabia. Ia ter que entrar na faca.

Estranhamente, isso não me incomodou. Pensei de mim, pra mim mesmo: “Cirurgia, ahá. Grandes coisas. Já tirei 4 cisos de uma vez, oras. Um ou dois cortes na barriga não chegam nem perto de 4 cisos. 4 cisos são o flush do poquêr. Só perde pra ponte de safena, mamárias e redução de estômago. Mas de jeito nenhum perdem pra uma videolaparoscopia. Não mesmo.”

Videolaparoscopia. Nomezinho complicado, procedimento complicado, certo? Nem tanto. De acordo com o que o Dr. Alvino (o que me operou – diferente do médico que me atendeu) me disse logo depois, era uma cirurgia de média dificuldade, bem recente em termos médicos e com certeza melhor do que o anterior, que eu fiz questão de não saber como era. Esse videonãoseidasquantas consistia em abrir dois pequenos furos na barriga, usar o furo já existente (o umbigo, gente, o UMBIGO!) e dois cortes pequenos, um do lado esquerdo (perto do apêndice) e outro na cintura. Basicamente, entram uma câmera, bisturi a laser, laparoscópio e sai um apêndice inflamado*.

*Caramba, resumi um complexo procedimento operatório em meia frase mal escrita. Hipócrates vai se revirar no túmulo cada vez que alguém ler isso.

Depois de saber o resultado, ainda tive que esperar mais uma hora e meia pra ser internado, por falta de quartos. Quando o veículo birrodal de assento único (ou cadeira de rodas, tanto faz) chegou pra me levar, ganhei de brinde uma fita plástica pra prender no braço, onde constavam a data de hoje, o meu nome e o nome do plano de saúde. Não resisti. Era piada-chavão e eu tinha que fazer: “Olha isso, mãe! Caso eu morra, essa fitinha vai servir pra identificar o corpo!”. Tive certeza de que se não houvesse uma parede atrás dela, a dona Help caíria pra trás. E eu ainda tive o bom senso de dizer “Ih, já vejo uma luz no fim do túnel” apontando pra porta aberta no final do corredor e melhorando mais as coisas.

Cirurgia marcada pra 19h. Aguardei no quarto até as 18:30, quando um dos assitentes do médico chegou com uma maca pra me levar. Perguntei se eu podia dirigir a maca até lá e ele não respondeu. Só riu. Quase falei “É sério, posso?”, mas me contive.

Lá fui eu. Lembro bem do trajeto: 3 corredores, elevador, mais corredores, sala do pós-operatório, sala do pré-operatório. Meia horinha vendoAlma Gêmea (a Débora morreu!!! Viva!!! Mas… quem é a Débora mesmo?) e lá fomos eu e minha pança dolorida pra sala de cirugia.

Estranhamente, eu não estava tenso. Por mais que as circunstâncias me obrigassem a ficar assim, eu não estava. Talvez por isso minha mãe tenha ficado duplamente tensa, por mim e por ela, quando saí do quarto.

(Continua…)

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